Deriva Rural

A idéia de se fazer uma deriva na comuna partiu da necessidade dos estudantes de vivenciarem, mesmo que brevemente, algumas situações cotidianas junto das crianças do Dom Tomás. Em outros encontros, as crianças relatavam suas impressões sobre os espaços da comuna por meio de desenhos e falas, mas ainda era difícil que entendêssemos todos esses afetos e memórias sem ao menos caminhar por esses lugares.

De maneira prática, a proposta dessa atividade era formar três grupos com mais ou menos 15 pessoas (em média 13 crianças e 2 estudantes) que partiriam da frente da plenária, onde há o encontro de 3 ruas e por onde cada grupo seguiria por um desses caminhos. Cada grupo partiu com um “kit deriva”- que contava com 2 câmeras descartáveis de 27 poses, diversos retalhos de tecidos coloridos e tintas- e teria 2 horas para percorrer o trajeto e voltar para a Ciranda. A documentação e os desvios de cada grupo eram livres.

Como metodologia, optamos por não levar câmeras digitais nem mapa, mas deixar que as crianças guiassem e registrassem a atividade conforme suas próprias regras utilizando o kit deriva.

Sendo assim, ao final cada grupo acabou criando sua própria atividade e aqui estão seus registros.

Agradecemos a Brunna Laboisier, Mariana Sakurada, Marina Barrio e Thiago Lee.

Relatos dos convidados:

“Participei da atividade de deriva pelo assentamento (podem mudar para o nome oficial, se nao for esse!), na qual acompanhei junto com a Ana um grupo de crianças em uma caminhada de brincadeiras. As crianças foram divididas em grupos aleatórios, de forma a evitar grupos de amigos que estão sempre juntos, e misturar meninos e meninas de várias idades. Mesmo assim, as crianças deram o seu jeito de se misturarem de volta nos seus grupos de amizade, assim que no meu grupo ficaram um grupo de meninos mais velhos, um grupo menor de meninas mais velhas, e um grupo de meninos e meninas pequenos. Para a caminhada, entregamos às crianças alguns tecidos coloridos e duas maquinas fotográficas descartáveis. Sugerimos que marcassem o percurso com os tecidos e que com as fotos procurassem imagens significativas do assentamento. As meninas mais velhas estavam muito tímidas para participar da atividade, mas nos acompanharam durante o percurso, sem muita interação com os outros. Já os meninos mais velhos eram muito espontâneos, estavam sempre brincando uns com os outros e gostavam de tirar e posar para fotos. Uma das coisas mais legais do nosso percurso foi um balanço que os meninos mais velhos construíram com os tecidos numa construção abandonada que encontramos no caminho. Eles usaram do material que tínhamos para construir um brinquedo, que logo pode ser utilizado pelos mais novos. As crianças mais novas tinham muita curiosidade em manipular a câmera, e gostavam de registrar os momentos. Elas gostavam também de se fantasiar com os tecidos e com tinta para o rosto. Criaram uma linguagem comum para as fantasias, de forma que pareciam uma tribo. Outra construção legal que fizeram com os tecidos foi uma sacola de carregar tecido, que as crianças levavam nas costas. As crianças pequenas nos mostraram algumas referências de elementos do meio rural do qual gostavam. Duas vezes me mostraram ninhos de passarinho e também diziam os nomes das plantas que mais lhes chamava a atenção. No final da atividade, no caminho de volta, fizemos com os mais novos uma corrente segurando os tecidos e voltamos em fila. As crianças riam muito e gostavam de alternar o ritmo de caminhar, para confundir os outros, correndo e desmanchando a corrente. Os mais velhos tinham se dispersado, mas nos esperavam no ponto de encontro de todos os grupos, na ciranda. As crianças de todos os grupos, espontaneamente, enfeitaram a árvore ao lado da ciranda com tecidos da atividade. Para mim a brincadeira foi cheia de imaginação e fantasia, na construção de uma tribo, de um grupo de semelhantes, que se podia reconhecer visualmente pelas pinturas e roupas. O espaço em que estávamos não estava dividido entre espaço-para-brincar e espaço-para-não-brincar, e sem a divisão brinquedo e não-brinquedo, tudo podia ser apropriado na nossa fantasia. No final, o que instigou a brincadeira foram os elementos que levamos para a atividade (tecidos, câmeras, tintas) e a partir deles fomos nos apropriando de outros elementos presentes no percurso (construção abandonada, cercas, plantas, caminho de terra).”

Marina Barrio

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s